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Terça-feira, 25 de Janeiro de 2005

Filosofia Barata para Baratas

Para se lidar com baratas há quem acredite em inseticidas e baraticidas. Como em tudo mais, acredito em psicologia. Para se aplicar a psicologia é preciso um certo método e uma vasta disciplina. Vejamos.

Encontra-se a barata. Para se encontrar uma barata não é preciso muito gasto de energia. Em geral ela nos procura. E mais em geral ainda ela vem ao meio de nossos dedos quando pegamos aquela pilha de livros que estava embaixo da escada. No momento em que sentimos a barata presa em nossos dedos um sentimento de horror inaudito corre nossa espinha. Largamos livros, agitamo-nos furiosamente, batemos no chão, nos móveis e nos livros com o primeiro pano ou jornal que se nos depara, mas, a essa altura, a barata já estará longe, escondida numa das 365 mil páginas dos 870 livros que espalhamos no chão. Como encontrá-la? eis o problema. Esse problema, depois de acalmados nossos nervos e esfregadas nossas mãos com sabão e bastante álcool, é que procuramos resolver.

Existe, para se pegar uma barata, dois processos distintos. Um é chamar a empregada e dizer: "Tem uma barata aí! Quero isso bem limpo!" e virar covardemente as costas. Dessa atitude pode resultar que a barata atinja um extraordinário grau de longevidade pois a empregada passará um pano nos livros e jogará por cima deles um pouco de DDT, dando-se por satisfeita. A barata também. E daqui há seis meses, quando você for pegar aquele velho exemplar de Balzac, terá a desagradável surpresa de ver, à página 276, olhando-o com aqueles olhos brejeiros e aquelas antenas irônicas que lhe são próprios, a mesma barata que você tinha condenado à morte. Vocês fitar-se-ão demoradamente. Ela continuará baloiçando as antenas. E você, depois de um segundo de inércia, saltará para o ar, jogará o livro para o outro lado e berrará femininamente. Pois eis que as baratas têm o extraordinário poder de nos afeminar a todos, afirmativa essa que se aceitará sem contestação se se atentar para o grande número de baratas que há em nossos teatros.

Portanto não se deve virar as costas a uma barata, como fazem os elementos da ribalta, mas sim enfrentá-la masculamente. Para isso precisamos, antes de mais nada, saber se a barata é uma BLATÍDEA comum ou se é uma PERIPLANETA AMERICANA, ou, em linguagem menos científica, uma dessas baratas que voam. Se é dessas aconselho o leitor a desistir de qualquer pretensão máscula, arrumar as malas, fechar as portas de sua casa e entrar para o Teatro.

Agora, se é das outras, sempre há recursos:

1 — Pegue um Correio da Manhã bem dobrado, deixando à mostra o artigo de fundo. Sacuda os livros e espere, trepado numa cadeira. Atente sobretudo para o estilo de bater quando a barata surgir. Lembre-se: o estilo é o homem.

2 — Quando a barata surgir bata de uma vez. Não durma na pontaria. Ela normalmente pára um pouquinho, para sondar o ambiente cá de fora e confrontá-lo com a literatura em que vive metida. esse o momento de atacar.

3 — Trate de verificar se o inseto em que você está batendo é uma barata ou um barato. Nunca se esqueça: o barato sai caro.

4 — Nunca aproxime e afaste o jornal para fazer pontaria. As baratas sabem muito bem o que as espera quando sentem esse ventinho, quando você bater de verdade ela já terá embarcado para a Europa.

5 — Não tenha pena de bater. Bata firme, forte, decididamente. É a vida dela ou a sua. Se você não a matar terá que passar a existência inteira alimentando-a a inseticida.

6 — Não se importe com as coisas que o cercam. Afinal de contas que são meia dúzia de copos partidos, um tapete manchado, dois livros com as páginas rasgadas e uma perna de cadeira quebrada se você conseguiu eliminar uma barata?

7 — Se falhar, só a paciência lhe dará outra oportunidade. A barata não lhe dará outra tão cedo, enquanto permanecer em sua memória o trauma da pancada que quase lhe tirava a vida. Não adianta você sacudir livro após livro porque se recusará a aparecer. Agarrar-se-á às páginas e, se cair ao chão, correrá rapidamente, escondendo-se por trás do guarda-roupa.

8 — Não se deixe levar pela vaidade. Às vezes você atinge uma barata de leve e ela vira-se de barriga para o ar agitando as perninhas ininterruptamente, com a expressão de quem está dando uma gargalhada, achando você engraçadíssimo. Isso poderá lisonjeá-lo mas não a poupe por esse motivo.

9 — Às vezes elas tentam outro truque sentimental. Atingidas de leve elas vão se arrastando tristemente, de vez em quando olhando para você com um olhar que 1he dilacera o coração, como quem diz: "Seu malvado, viu o que você fez?" Antes de começar a chorar bata até matar. Depois chore.

10 — De seis em seis meses faça um teste consigo próprio para ver se você está mais desbaratador do que no semestre anterior. Se a resposta for negativa não esmoreça. Continue lutando até que possa, como nós, cobrar caro pelas lições administradas. E essa é nossa última recomendação: cobre sempre caro pelos seus conselhos nesse setor. Não se barateie!

Millôr Fernandes

Ensaio do filósofo rafapaim às 23:59
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12 comentários:
De rafapaim a 10 de Fevereiro de 2005 às 16:58
Alexandra Guerreiro... nem quero ouvir a sua opinião acerca de outros bichos rastejantes!
De Alexandra Guerreiro a 1 de Fevereiro de 2005 às 00:19
As baratas da vida têm infinita manha.Para as enfrentar é necessário que defesas tenha. A barata gosta de calor, por isso bom será quanto mais frio for.Este bicho sujo também gosta de comida.Ao dito cujo não deve dar coisas da sua vida.A barata só traz dejectos e se cuidado não tiver vai andar a bater com a cabeça nos tectos!
De rafapaim a 27 de Janeiro de 2005 às 00:30
patinhas... isso ou aquele bota de bico para matar barata no canto da sala!
De patinhas a 26 de Janeiro de 2005 às 23:22
Raaaaaaid!
De rafapaim a 26 de Janeiro de 2005 às 17:34
Bruno... não me parece que tenha as condições para entrar nesse concurso... é que escrevo apenas para organizar pensamentos e gozo próprio... e também pela satisfação de ler vossos comentários!!!
De Bruno a 26 de Janeiro de 2005 às 16:02
olah vem ao concurso http://concursowonderblog.blogs.sapo.pt e inscrevete!!!
De rafapaim a 26 de Janeiro de 2005 às 11:23
anja... de nada!
De rafapaim a 26 de Janeiro de 2005 às 11:06
so12... acho que ele nem com DDT ia desta para melhor!!!
De rafapaim a 26 de Janeiro de 2005 às 11:05
Miguel... li o teu discurso até ao fim... tem uma certa piada e ao mesmo tempo serve para ironizar alguns acontecimentos! Sei que não vais ler esta resposta mas a política por sí só já nos proporciona algumas gargalhadas e amargos de boca... já chega isso, não preciso que tu venhas lá não sei de onde, com um mail que nem vou comentar com discursos destes porque a mim não me interessa nada (pelo menos aqui porque senão o blog em vez de filosofia barata era o política barata!) Certo?!
De anja a 26 de Janeiro de 2005 às 09:55
obrigada!!

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