.Filosofias Recentes

. Outro reinício ...

. 5 sentidos...

. Calma! Está tudo perfeita...

. É desta vez...

. Desperdício

. Indiferenças

. Certezas!

. Perspectivas…

. A dor do amor

. Também é amizade

. A vida segue!

. Livro dos Loucos

. Basta o essencial

. Redes Sociais

. Eu no meu papel

. Indian Piggy

. Anonimamente ela...

. Voltou a acontecer

. Eu quero ser o teu proble...

. The Space Between

. o quatro do quatro a uma ...

. Sutilmente

. Deus está aqui

. Semelhanças...

. Onde você mora?

.Filosofias Passadas

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Outubro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Março 2014

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Abril 2013

. Outubro 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

Sexta-feira, 25 de Março de 2005

Amor à Ciência

"As rãs são animais fascinantes, sabias? Para além de serem extremamente bonitas, como tu aliás, são importantíssimas para o ecossistema, e são fonte de inúmeros estudos de fisiologia. Através do funcionamento dos seus nervos motores podemos descobrir tanto sobre nós próprios. A espécie humana não é tão diferente das outras como se julga.

Sabes como se mata uma rã em laboratório? Utiliza-se um método extremamente eficaz e supostamente indolor. Um método “humano”, se assim desejares defini-lo. Eu costumo chamar-lhe hipocrisia, mas sabes como sou sarcástico. E, sinceramente, o sofrimento das rãs não me diz muito. A Ciência vem em primeiro lugar. São necessários grandes sacrifícios para se fazerem grandes descobertas. As rãs são as mártires do nosso tempo, se assim quiseres, sacrificando-se em prol dum bem maior.

Mas já me perdi em divagações, como sempre. Por isso nunca fui um professor brilhante. Os meus alunos queixavam-se que eu era incapaz de manter um fio condutor no meu raciocínio, e que os baralhava mais do que esclarecia. Cambada de incompetentes mentais, isso sim. Habituados a terem a papinha toda feita, com as suas sebentas de saber já mastigado e digerido, pronto a derramar em pseudotestes, que supostamente avaliam conhecimentos, mas que servem apenas de medida de aferição da capacidade de reter matéria inútil, como um corpo disfuncional retém as águas da urina.

Mas são um bicho interessante e abnegado, as rãs. Bem melhores que os ratos, que se contorcem como loucos, enormes bichos de esgoto, que só morrem à custa de doses massiças dum veneno qualquer. Habituados a viver na podridão, bichos nojentos. As rãs não, elas são as melhores amigas do fisiologista, os cães dos cientistas. Sobrevivem dentro do frigorífico por longos períodos de tempo, baixando o seu metabolismo para não morrerem. Economiza-se em comida e em instalações. Só vantagens, como podes ver.

Mas o que mais me fascina, como te disse anteriormente, é a forma como são mortas em laboratório, uma verdadeira maravilha da ciência. Introduz-se lentamente na zona da nuca, como um ritual religioso, uma agulha fina mas resistente. Pressiona-se até atravessar a pele e restantes tecidos, até atingir a delicada zona do cérebro. Aí chegados, movimentamos a agulha em círculos, até extinguir completamente qualquer actividade cerebral. Uma metodologia simples, eficaz, limpa e sem qualquer tipo de dano para o investigador, sem consequências morais. Os meus alunos queixam-se um pouco ao inicio, têm pruridos, dilemas éticos, mas são rapidamente conquistados pela beleza delicada da operação. Mais do que ciência, o processo torna-se numa verdadeira obra de arte.

O problema é que se torna viciante, queremos cada vez mais, melhor e maior. Quando nos apercebemos, uma simples rã já não chega, deixa de nos satisfazer. E passamos para uma lagartixa, animal um pouco mais complexo, embora ainda bastante em baixo na escala evolutiva. Depois, um dia, acordamos com vontade de experimentar numa avezinha indefesa, num pequenino mamífero, um ratinho, quem sabe?

Sabes,amor? Eu sou um cientista de topo, estou no cimo da escala evolutiva, da cadeia alimentar, os meus desejos têm de ser respeitados, porque um dia farão o mundo andar para a frente. É do resultado dos meus estudos que sairão grandes avanços para a humanidade. Por isso, amor, tu és a peça mais importante deste puzzle. Tu aí quieta, com esses olhos assustados, as extremidades amarradas e o corpo indefeso, vais salvar toda a humanidade, uma Messias dos tempos modernos, cura para o mundo doente.

Tu, meu amor, estás a fazer a dádiva mais bela e justificada de todas, ao doar o corpo para a ciência, ainda que involuntariamente.

E assim, amor, através do meu trabalho, seremos os dois imortais."

Texto publicado em Horas Negras por Sonia na Segunda-feira, Março 21, 2005

Ensaio do filósofo rafapaim às 19:24
link do post | comentar | favorito

.Agosto 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31